Há
exatos 100 anos, em 20 de outubro de 1916, era assinado o Acordo de Limites
entre o Paraná e Santa Catarina, colocando um ponto final ao conflito de
divisas territoriais que alimentou um dos mais sangrentos embates desse tipo
registrados no país e que chegou a ser comparado, por suas características, à
também terrível Guerra dos Canudos, ocorrida anos antes na Bahia. O assunto
será tema de duas palestras promovidas pela Escola do Legislativo da Assembleia
do Paraná, na próxima quarta-feira (26), às 9h30, em seu Plenarinho. O
presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná e desembargador
aposentado do Tribunal de Justiça, Paulo Roberto Hapner, vai falar sobre o
“Centenário do Acordo de Limites”, e o professor de História há mais de 30
anos, mestre em Educação pela Universidade Federal do Paraná, Renato Mocellin,
vai desenvolver o tema “Para compreender a guerra dos pelados X peludos”
Um
livro, “Revelando o Contestado”, coordenado e organizado pelo jornalista Jorge
Narozniak, ex-funcionário da Alep, e editado pela Imprensa Oficial do Estado em
2012, registra o primoroso trabalho fotográfico do sueco Claro Jansson sobre o
Contestado. Narozniak, um dedicado pesquisador do assunto, expressou na ocasião
seu estranhamento em relação ao que chamou de “distanciamento incompreensível”
do Paraná e sua história: “Há registros das forças armadas sobre a guerra, mas
os caboclos não tinham relatórios sobre sua participação nos fatos. Isso
explica porque até pouco tempo, eles eram simplesmente classificados como
fanáticos”.
O
conflito
A indefinição dos limites territoriais entre
os dois estados se arrastava desde os idos do Império. Até a vizinha Argentina
reclamava a posse de áreas localizadas nessa região. Em 1904 o Supremo Tribunal
Federal deu ganho de causa aos catarinenses e reafirmou a decisão nos anos
seguintes. A sentença, porém, foi ignorada pelo governo do Paraná, ajudando a
compor um cenário que favoreceu a conflagração.
As
terras abrigavam uma rica floresta e extensa plantação de erva-mate. Abastados
fazendeiros que acumulavam extensas áreas e assim se tornavam proprietários,
pressionavam agregados e posseiros para que deixassem o local. A situação se
agravou com a chegada da empresa americana Brazil Railway Company, comandada
pelo megaempresário Percival Farquhar, com o intuito de construir a estrada de
ferro São Paulo-Rio Grande do Sul. Ali ele instalou a maior madeireira da
América do Sul na época e uma companhia colonizadora que, após o desmate,
venderia os lotes a imigrantes europeus. Concluídas as obras, cerca de oito mil
operários foram dispensados e famílias que moravam nas terras adquiridas pela
companhia tiveram que deixar o lugar.
Nesse
grave quadro social prosperou um movimento de cunho messiânico, com profetas,
beatos e monges pregando ideais de paz, justiça e comunhão. Dentre eles
destacou-se João Maria, que reuniu em torno de si posseiros, sitiantes e
pequenos lavradores expulsos de suas áreas. Fugindo das forças policiais
enviadas pelo governo catarinense, os rebeldes foram para Irani (SC), situada
em território contestado. O movimento foi interpretado pelo Paraná como uma
investida catarinense para forçar a posse do território, o que fez com que
enviasse um destacamento para expulsar os invasores. Em outubro de 1912 a ação
terminou de forma trágica, com 21 mortos, entre eles o monge José Maria e o
comandante das forças de segurança do Paraná, coronel João Gualberto.
A
partir daí o conflito só se intensificou, juntando antigos seguidores do monge
com descontentes em geral, colonos expulsos, fazendeiros que se opunham aos
coronéis da época, tropeiros sem trabalho, desempregados da ferrovia e até
ex-combatentes da Revolução Federalista (1893-1895). Segundo o historiador
Paulo Pinheiro Machado, autor do livro “Lideranças do Contestado”, num
determinado momento o litígio tornou-se uma guerra de pobres contra ricos: “Uma
guerra daqueles que queriam formar suas comunidades autônomas, onde todos
viveriam em comunhão de bens, o que era uma negação da própria ordem
republicana, da concentração fundiária, do poder dos coronéis da Guarda
Nacional e da força da polícia, do Exército e da companhia ferroviária sobre
eles”.
Expedições
militares tentaram desmobilizar o movimento que só fazia crescer. O ataque ao
reduto de Taquaruçu resultou num verdadeiro massacre. Novos redutos se formaram
e o movimento se militarizou. Os últimos combates ocorreram em dezembro de
1915. A captura de Adeodato Ramos, o ultimo e mais temido dos líderes
rebelados, marcou o encerramento dos confrontos no inverno de 1916. Em outubro
deu-se a assinatura do acordo. Pressionados pelo presidente Wenceslau Braz,
cada estado teve que abrir mão de parte de seus pleitos. A partilha foi
considerada favorável aos catarinenses, que ficaram com 28 mil dos 48 mil
quilômetros quadrados da área reivindicada.
Na
assinatura do acordo, no Palácio do Catete, no Rio, então capital federal, o
governador de Santa Catarina, Felipe Schmidt, comemorou a paz. O governador do
Paraná, Affonso Camargo, fez o mesmo, mas deixou claro o ressentimento com um
desfecho que considerava injusto. Observou que sua decisão se prendia à
necessidade urgente de encerrar uma “luta fratricida sem precedentes”: “Ali
caíram sem vida oficiais do Exército, bravos soldados das forças nacionais e
estaduais e milhares de sertanejos, na sua maioria laboriosos,
em uma confusão desumana que dolorosamente impressionou o país”. Ao referir-se
aos sertanejos, de certa forma o governador reconhecia que o movimento, hoje
tido como uma das maiores revoltas camponesas já ocorridas no Brasil, era mais
que uma combinação de fanatismo e banditismo, como queriam muitos.
Uma
visão lúcida do conflito foi apresentada ainda na época da guerra, por um jovem
comandante do Exército, o capitão Mattos Costa, que defendia uma solução
pacífica para o confronto: “A revolta do Contestado é apenas uma insurreição de
sertanejos espoliados nas suas terras, nos seus direitos e na sua segurança. A
questão do Contestado se desfaz com um pouco de instrução e o suficiente de
justiça, como um duplo produto que ela é da violência que revolta e da
ignorância que não sabe outro meio de defender seu direito”.
Informações ALEP
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