Por: Psicóloga Hanna
Hellena Lucavei Gechele
Nos
últimos anos, venho estudando e discutindo a respeito do exercício da
função materna na constituição do sujeito, a partir da perspectiva
psicanalítica. Minha pesquisa também está envolvida com o ser mãe e ser mulher,
enfim, com o mundo feminino e suas implicações. Já tenho dois artigos
publicados sobre o tema, e um deles faz parte do segundo capítulo do Livro
“Teoria Psicanalítica e Práticas Institucionais em Saúde Mental”.
Para
iniciar a parceria como colunista do Na Hora Notícias, neste primeiro texto vou
falar sobre o assunto que estudo.
A
psicanálise possui um olhar peculiar em relação à função materna, pois trata-se
de uma função necessária para a estruturação do psiquismo da criança. É uma
função que envolve diversas questões, cuidados tanto físicos como emocionais, e
entre essas questões, está situado o desejo da mãe pelo filho. Nesse sentido, o
desejo pelo filho, é um fator importante a ser considerado nesse processo, pois
o lugar dessa criança no desejo inconsciente dos pais, antes de mesmo de
nascer, pode afetar tanto a construção da maternidade quanto a constituição
subjetiva do bebê.
Durante
a minha pesquisa, procurei entender primeiramente como ocorre a constituição
subjetiva (que é a constituição de uma pessoa como ser humano a partir de suas
vivências psíquicas), os elementos que fazem parte desse processo, e a
importância do cuidado de quem exerce a função de mãe, buscando um melhor
entendimento dos fatores que influenciam a relação mãe-bebê e,
consequentemente, a constituição de um sujeito desejante. Para tanto, tive como
referência o delineamento da psicanálise, principalmente Freud e Lacan, e
colaboradores contemporâneos que utilizam uma abordagem psicanalítica.
Os
primeiros anos de vida do sujeito são fundamentais para a sua estruturação
subjetiva. O bebê nasce numa condição de total dependência, numa extrema
fragilidade psíquica e corporal, e precisa de um outro ser humano para
continuar existindo, precisa de alguém que esteja identificado com
ele, e seja capaz de atender suas necessidades, tanto físicas como emocionais.
Vale lembrar que a função materna não precisa ser necessariamente exercida pela
mãe biológica, esta função pode ser delegada à mãe adotiva, ou adultos
cuidadores, como, pai, avós, babás, entre outros
Dessa
forma, ao nascer, o bebê tem a necessidade de alguém que se identifique com ele
e o ajude em sua constituição, ou seja, a perceber-se como pessoa no mundo,
reconhecendo-se no seu corpo e na realidade. O que faz do vínculo mãe e filho
um vínculo estruturante, é a particularização do interesse e do desejo da mãe.
Os cuidados maternos, como a alimentação e a higiene ganham importância
estruturante na medida em que há essa particularização, na qual cada criança
tem um lugar específico, desejado pela mãe, sendo necessário que a mesma
perceba como fazer para satisfazê-lo e possa reconhecê-lo em suas
particularidades.
Assim,
a função materna é desempenhada pela pessoa que cuida, amamenta, olha nos olhos
da criança, ouve o que ela diz, está atenta aos seus sinais, tanto orgânicos,
como emocionais. Todas essas atitudes permitem ao sujeito
perceber-se como único, amado, desejado e importante. Vale ressaltar que esses
cuidados dependem da necessidade de cada criança, pois cada um responderá a
isso de forma própria.
Porém,
o que parece ser simples é também complexo, pois, para que a mãe consiga
desempenhar sua função e ter a capacidade de conter as angústias do bebê, é
preciso que tenha vivenciado, em sua história pessoal, uma favorável
experiência afetiva com sua mãe. Isso ocorre pelo fato de que os fundamentos da
constituição do sujeito emergem da relação saudável ou não que ocorreu nesses
períodos iniciais. E, para ser capaz de se identificar com o bebê, bem como
reconhecer e transformar as necessidades físicas e psicológicas de seu filho é
preciso que a mãe tenha vivenciado também essa experiência.
Posso
afirmar que o amparo psíquico da figura materna para o bebê é de extrema
importância para a constituição subjetiva, sendo a base principal para todos os
demais relacionamentos da criança. O adequado relacionamento mãe e filho representam
proteção e segurança para a criança, contribuindo essencialmente para a
formação adequada do aparelho psíquico e da sua constituição como sujeito.
Se
você percebe que existem dificuldades na sua relação com os filhos, ou até
mesmo na sua história de vida pessoal que esteja interferindo em suas vivencias
atualmente, ou tem interesse em saber mais a respeito desse assunto, estou à
disposição.
Clínica
de Psicologia, Rua Barão do Rio Branco, 603.
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